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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Filme: I Am

Os 10 Mandamentos foram escritos numa época de intensa religiosidade entre os povos. Seja adorando o Deus hebreu seja adorando Baal, as tribos se dedicavam a construir para si impérios totalmente centrados na (ou nas) divindade(s). Neste contexto era fácil entender normas como “não terás outros deuses diante de Mim” ou “não farás para ti imagens de escultura”.

Ocorre que, no presente século, com a vida religiosa cada vez mais se esfacelando em meio à ciência e à cultura pós-moderna, não é tão simples entender como os comandos Divinos se aplicariam ao nosso dia-a-dia. É exatamente sobre esta tarefa – aplicar os 10 mandamentos à realidade do século XXI – que se debruça I Am (EUA, 2010), filme do diretor americano John Ward que acaba de ser lançado em DVD pela 20th Century Fox.

Filmes de cunho religioso sofrem de um problema que parece ser crônico: personagens, cenas, trilha sonora, histórias, tudo é arquitetado e composto de forma a dar suporte para os discursos evangelísticos. Com isso, os longas parecem mais um sermão do que uma história. O espectador percebe que está sendo conduzido para chegar a uma conclusão e imediatamente cria uma barreira (se suas convicções pré-estabelecidas não forem condizentes com as do filme). Desta forma uma das premissas básicas do cinema é quebrada: não diga, mostre.

Não é o que acontece em I Am. O filme conta a história de várias pessoas que, apesar de não se conhecerem, estão interligadas por um evento incomum: o desaparecimento da socialite Angelica Vita (Christinna Chauncey), recém diagnosticada com câncer. Ao redor deste evento irão se mover vários outros personagens mais ou menos óbvios, cada um com sua dificuldade com algum dos mandamentos: a jovem que não consegue encarar a esposa do médico com quem teve um caso, o cientista perturbado com as conseqüências de seus crimes éticos, o detetive obcecado por vingança e o promotor obcecado por justiça e temeroso de sua reputação.

Todas estas pessoas são confrontadas com suas próprias escolhas por um personagem sem nome que aparece a dialogar com os protagonistas durante todo o filme. Não fosse este senhor tão familiar aos personagens, poderíamos imaginar que se trata de um guia místico a orientá-los. Porém, o mais provável é que o personagem de Thomas Boykin seja uma representação personificada da consciência ou do Espírito Santo falando a ela. O curioso é que esta voz nunca prega, apenas faz perguntas, que, na maioria das vezes, levam a reações vagas e cheias de dúvida. Esta é a principal virtude do longa: nunca entrega as respostas prontas. Leva o público a refletir sua própria experiência e construir as próprias conclusões.

Há duas ressalvas que precisam ser feitas:

(1)  A produção às vezes se concentra em interpretações mais metafóricas e menos literais dos dez mandamentos. O sábado é quebrado pelo músico que não teve tempo para o filho adolescente antes que ele morresse. O nome de Deus é usado em vão por um playboy milionário que pretende dar o nome do d’Ele à sua água mineral recém lançada no mercado. O primeiro mandamento é violado pela personagem de Angélica, que põe a si mesma (ou a ciência) acima de Deus. Estas abordagens não estão erradas. Elas representam uma interpretação dos mandamentos em seu sentido lato, amplo.

(2)  Os motivos do sumiço de Angelica podem soar inverossímeis, porém, não é intenção do roteiro se ater à sua história ou nas implicações científicas de sua decisão. Ward não se ocupa de dar detalhes, nem de explicar como o que foi feito foi feito. O evento serve apenas de suporte para dar liga ao objeto da trama: os dramas pessoais dos outros personagens.


Quando uma produção de ficção troca a força da história pela pregação verborrágica, ele corre o risco de que todas as suas intenções sejam anuladas. Se o espectador não se identificar com o ponto de vista, se a experiência concluída dos personagens não for a sua, a mensagem que o filme quer passar (e todo filme quer passar uma mensagem) estará perdida. I Am não se trata de uma produção brilhante. E é um filme declaradamente cristão. Mas a forma como conduz o tema é como quem não está interessado em provar nada, e por isso mesmo, muda tudo.

Amplexos milenares,

Ângelo Bernardes 

2 comentários:

  1. Nossa curti muito o seu post e com certeza já estou indo vê-lo .. Obrigada!

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  2. Ângelo... essa foi realmente uma análise bem feita do filme. Eu assisti o filme há pouco (peguei por acaso) e pensei em dar a minha opinião sobre ele... mas seu texto tornou isso desnecessário. Não sou fã de filmes cristãos, mas esse tem uma abordagem diferenciada, deixou uma excelente impressão. Recomendo.

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