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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sobre o cancelamento da web-série The Record Keeper

Acabei de receber a notícia de que The Record Keeper, a web-série que estava sendo produzida pela Igreja Adventista para fins evangelísticos, foi cancelada há alguns dias atrás. A tomada de consciência que levou à escolha foi óbvia e compatível com os princípios da igreja. O grande problema foi a maneira como a decisão foi tomada e posta em prática.

Em que pese o fato de que o meu ressentimento não vai mudar nada, gostaria de compartilhar algumas observações interessantes que talvez sirvam para reflexão daqueles de cuja geração sairá a próxima leva de líderes religiosos. Vejamos:

1. O projeto jamais deveria ter sido encomendado. Não porque nele houvesse algum problema conceitual mas porque era extremamente previsível que suscitaria um tipo de controvérsia com a qual a Igreja Adventista prefere não lidar. É chocante que a liderança envolvida não tenha sido capaz de adiantar os problemas que culminariam no cancelamento da série.

2. Se a liderança da igreja acreditava neste projeto, devidamente embasados no estudo bíblico-doutrinário, oração, reflexão e debates, é lamentável que, agora, ela prefira ceder à ignorância daqueles que advogaram contra a série do que esclarecer a membresia sobre a correta interpretação das orientações de Ellen White sobre o uso da ficção.

3. Foi um péssimo testemunho para os profissionais não-adventistas envolvidos no projeto. Alguns bastante influentes no universo midiático.

4. Temos uma reunião mundial da igreja acontecendo ano que vem. Não teria sido mais democrático - e, por isso, mais conforme os princípios eclesiásticos da igreja - permitir que este assunto fosse à pauta?

5. Países como Brasil e África sobreviverão perfeitamente sem o projeto, mas lugares como os EUA e a Europa ocidental precisavam desesperadamente dele para conseguir captar a atenção dos jovens de mente secularizada.

6. A resposta-padrão: "Não aconteceu porque não foi da vontade de Deus" além de cansativa é desrespeitosa. É básico o conhecimento de que nem sempre os homens tomam decisões de acordo com a vontade de Deus. E se isso foi verdade para Moisés, também é verdade para nós.

7. Os dois anos de gasto inútil com a produção da série dão o tom da urgente necessidade de profissionalização dos ocupantes de cargos administrativos nas organizações da Igreja.

8. Um pedido público de desculpas - ao invés de uma nota indiferente - seria de bom tom.

9. Os supostos erros cometidos na esfera administrativa da Igreja não a desautorizam doutrinariamente nem tampouco enquanto comunidade cristã legítima.

Leia esta notícia dada pela Igreja Adventista sobre o cancelamento da série.

Leia a declaração do Dr. Anthony Medley, pastor da Igreja Adventista Emmanuel-Brinklow, a única que teve o privilégio de assistir a série, uma vez que era a igreja-teste do projeto.

Leia ou assista a elegante declaração de Jason Satterlund, diretor de The Record Keeper, sobre o cancelamento da série:


Veja o trailer da série:
Veja o episódio-piloto da série:


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Crítica: Noé


A maioria das pessoas gosta de usar a palavra "mito" para descrever histórias fantasiosas de veracidade sabidamente inexistente. Eu prefiro a definição técnica literária de Tolkien (Senhor dos Anéis), segundo a qual mito é uma narrativa que tenta explicar o significado das coisas fundamentais. É neste sentido que classifico a história bíblica de Noé como um mito. Alguns hão de considerá-la um mito verdadeiro. Outros, pura ficção. Não importa em que grupo você esteja, crentes e céticos podem se deliciar com os significados desta história e extrair dela reflexões pertinentes. A não ser que você seja Darren Aronofsky e ache que tem ideias muito melhores para o enredo do dilúvio.

Imerso em críticas e protestos vindos de cristãos e mulçumanos, o longa-metragem Noé (Noah, 2014) estreou ontem aqui no Brasil e, nos EUA, já é a quarta melhor estréia do ano em termos de faturamento. Boa parte da audiência do filme se deve às polêmicas que trouxe. Há reclamações de que Aronofsky não teria sido fiel à versão bíblica amada por milhões de pessoas. Fato. Mas o problema não é exatamente este. Não creio que um cineasta tenha a obrigação de agradar religiosos (eu incluso), mas quando um profissional se apossa de uma peça de comunicação em massa como um filme hollywoodiano, ele tem uma responsabilidade e uma dádiva. A primeira se refere a garantir que o discurso de um grupo real de pessoas não seja distorcido com a intenção de dar força a um discurso contrário. A segunda diz respeito à oportunidade de dar voz, cor, ação e - por que não? - efeitos especiais a ideias universalmente importantes, permitindo que um número enorme de pessoas tenha acesso a lições que, de outra maneira, não iriam atingi-las.

Aronofsky falha nos dois momentos. Ele retrata Noé como um lunático implacável obcecado por uma missão e Deus como uma entidade cuja prerrogativa punitiva está acima de qualquer outra característica. Desta feita o diretor, que se diz ateu, dá fôlego às interpretações equivocadas do discurso cristão e corrompe a única coisa que a Paramout declarou não ter corrompido: a essência da história que inspirou o roteiro. Mas isso é algo que incomoda apenas a parcela da audiência que pratica o teísmo cristão criacionista. A segunda parte é a que interessa a todos.

Uma vez estava lendo uma crítica do primeiro filme do ogro Shrek, pródigo em fazer troça de contos de fadas, e o comentarista fez uma observação bastante interessante: as crianças que compunham o público-alvo estavam sendo submetidas às várias subversões das narrativas que inspiraram o filme, sem antes terem sido apresentadas aos originais. Desta feita, nem tiveram a chance de aproveitar as virtudes dos verdadeiros contos, nem tampouco de entender boa parte das excelentes piadas constantes em Shrek.

É esta a sensação que ficou quando vi Noé. A de que aquele poderia ter sido um grande filme, capaz de absorver toda a força imaginativa e reflexiva do mito, mas Darren parece ter sido infectado pelo mesmo virus amalucado que infectou M. Night Shyamalan em A Dama na Água e  realmente achou que era um excelente criador-de-novos-mitos-a-partir-dos-existentes. Tudo bem se fosse (vamos às novas ideias) mas não é. Quisesse mesmo explorar visões subversivas da história, ele teria uma infinidade de ângulos, nuances, detalhes a recorrer, mas preferiu jogar ingredientes aleatórios à receita narrativa sem se importar em combiná-los. O resultado é que tudo parece que quase chegou no ponto. Seria o diretor um humanista querendo dizer que a raça humana é o centro de tudo? Estaria ele querendo apresentar uma crítica ao suposto despotismo divino? Ele quer desmerecer a crença cristã? Ele quer fazer uns ajustes nela? Ele quer adicionar um tempero espírita (Platão, seu arroz de festa)? O diretor poderia desenvolver qualquer uma dessas ideias, ou mesmo ser ousado a ponto de desenvolver todas. Na forma como combina os elementos fílmicos, acaba não desenvolvendo nenhuma.

Não bastasse, há furos sérios no roteiro. O personagem de Anthony Hopkins (Matusalém) se presta a fazer pequenas macumbas e soltar frases de efeito ora bobas ora desconexas. O argumento que justifica Noé construir a arca é abandonado sem muito nexo de continuidade quando ele começa a achar que Deus quer usá-lo como genocida, enfim.

A verdadeira carta de intensões de Aronofsky vai aparecer lá pela segunda metade do longa, numa sequência belíssima, provocativa e assustadora. Ele queria mesmo era fazer um alerta contra a degradação do planeta. É a isso que Noé se resume. Um protesto eco-chato. Aronofsky é a versão ambientalista do pastor que chega quando todo mundo está se divertindo para perguntar: "que lições podemos tirar disso, jovens?"

Há virtudes na película, claro. O clima sombrio é maravilhoso, a atuação de Jennifer Connelly é fantástica, as referências à queda do homem e o constante senso de que o Edem é coisa recente são muito criativos, mas até nisso você se frustra. Fica pensando como o filme poderia tinha tudo para dar certo, mas não deu. 

Assim, se você está pouco preocupado com o significado da história original, Noé pode ser um bom passa-tempo de ação, mas se você procura algo mais, o único momento realmente significativo é quando o protagonista conversa com sua esposa. Esta tenta convencê-lo de que há bondade na humanidade, a exemplo de sua própria família. Mas ele revida convencendo a mulher de que, mesmo os seus estão condenados ao erro. Embora isso não invalide a viabilidade da raça humana, o próprio filme de Aronofsky advoga a favor da ideia. No final, o filme Noé é como a oferta do personagem bíblico Caim: cheia de ego, totalmente despida de signifcado.

Amplexos notáveis.

Ângelo Bernardes

quinta-feira, 4 de julho de 2013

10 perfis no Instagram que merecem um follow.

Se você está cansado de unhas, pratos de comida e auto-retratos no espelho, eis aqui um grupo de instagramers incríveis que vai te inspirar a produzir um melhor material na rede social mais celebrada do momento. Esta é a primeira edição de dois posts com sugestões. Para visitar o perfil dos usuários abaixo, basta clicar em cima dos nomes deles:

O cara é um americano amante de motociclismo, snowboard, barcos e surf. Acho que dá pra imaginar o tipo de foto que ele tira. Ele tem 123.722 seguidores e usa uma Go Pro e uma SF para tirar as fotos.


Ela é uma designer belga que percorre seu país de bicicleta tirando fotos sempre lindas. A Pieters tem cerca de 10.225 seguidores e clica todas as imagens usando um iphone 4 ou um iphone 5.


O Igo é pernambucano. Concluiu o Ensino Médio e está se preparando para o vestibular. Ele ingressou no Instagram tem três dias e já alcançou 32 seguidores. Ele fotografa como uma criança descobrindo usos diferentes para um brinquedo novo. O resultado é sempre muito criativo e, não raro, hilário. Minha impressão é que Igo fotografa a alma das coisas. Os vídeos dele são uma atração a parte. Ele usa um Motorola Razr D3 para clicar as imagens.


Eelco é holandês e vive mochilando. É das viagens que faz que tira as fotografias de seu perfil no instagram, todas clicadas com um iPhone (sabe-se lá o número). As imagens que quase sempre mostram pessoas pequenas diante de cenários enormes. Tem 262.374 seguidores.


A Charity Water é uma organização não governamental cujo trabalho consiste em levar água para regiões na África onde ela é escassa. Por onde passam, os fotógrafos da ONG fotografam como a água está mudando a vida das comunidades auxiliadas. As fotos são lindas e sempre evocam felicidade. Olhá-las sempre melhora meu humor. O perfil da Charity Water no Instagram conta com 145.841 seguidores.


Ele descreve a si mesmo no Instagram como designer e bebedor habitual de café. O forte das fotos de Dustin é que ele usa muitos filtros legais e escolhe ângulos sempre inspiradores. Ele também fotografa  bastante crianças em suas fotos. Mas relaxe, nada de carinhas gorduchas sorrindo para as câmeras. Elas geralmente dão um contraste ao cenário. Quando elas aparecem, é sempre para evocar inocência e fragilidade. Dustin tem 136.112 seguidores no Instagram.


Não consegui achar nenhuma informação sobre o cidadão. O que sei é que é difícil você achar uma foto dele que não seja absolutamente incrível. As cores que ele usa e as fotos tiradas com lente olho de peixe são sempre tão vivas que mais parecem cenários de Alice no País das Maravilhas. O perfil Taketalk tem 52.097 seguidores no Instagram.


Os três melhores

Ali Jardine é provavelmente a fotógrafa mais incrível do Instagram. Ela produz muito (tem cerca de 2.631 fotos publicadas até a publicação deste post) e suas fotos sempre transmitem os mais diversos sentimentos usando cores, distribuição de elementos na composição e montagens. Ela é californiana e trabalha com marketing. As fotos tiradas na água são as minhas preferidas. Ela tem 265.694 seguidores.


Se este post tivesse apenas um nome, seria o dele. O que esse cara faz com a câmera não parece ser feito por humanos. A imensa maioria das fotos são tiradas em preto e branco. Ele gosta de brincar com os efeitos de luz e sombra. Também tem mania de fotografar pessoas em posições absolutamente simétricas. Fã de arquitetura, Mr. 007 é um fotógrafo de Tokyo e tira todas as suas fotos com um iPhone (embora publique algumas fotos tiradas por um amigo com quem colabora). Tem cerca de 162.426 seguidores.


Trata-se de um fotógrafo paulista com um trabalho incomum: ele fotografa cenários em miniatura montados a partir de bonecos, comida e utensílios domésticos. É genial. O vídeo que ele fez de um banheiro em cima do joguinho de Tetris é impagável. Tem 1.023 seguidores no Instagram.


Agora é só escolher quem realmente merece seu follow. Até o post número 2.

Amplexos fotográficos,

Ângelo Bernardes

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Crítica: Guerra Mundial Z

Sou fã do diretor Marc Foster. Acompanho o trabalho dele desde A Última Ceia (2001). Acho impressionante a capacidade que ele tem de despertar compaixão no público e principalmente de levá-lo às lágrimas como fez em Em Busca da Terra do Nunca (2004). É por isso que fiquei curioso quando Foster deixou de dirigir dramas melosos e passou a trabalhar com blockbusters de ação. O primeiro resultado não agradou muito ao público - 007 Quantum of Solace, de que eu gostei muito. O segundo resultado está aí para ser apreciado: o novíssimo Guerra Mundial Z (2013). O filme narra a saga do ex-investigador da ONU Gerry Lane (Brad Pitt) tentando manter sua família à salvo num navio militar em troca de levar um jovem cientista a lugares remotos onde a cura para a doença que está transformando humanos em zumbis pode ser descoberta.

As críticas que li sempre estão divididas, mas muitos dos contra apontados mais parecem implicância de crítico do que necessariamente debilidades propriamente ditas. Eu achei uma coleção de virtudes. Vou elencá-las  abaixo e, ao falar deles, menciono também o que me incomodou, ok? 

Vejamos:

1. A explicação/evolução do problema: o filme começa com um apanhado de várias notícias jornalísticas sobre a crise. Elas vão desde a constatação dos primeiros casos - acompanhada de uma perigosa indiferença - até o alastramento da pandemia. Você vê que é tudo perfeitamente plausível (embora saiba que  é plausível apenas enquanto hipótese fictícia). Isso aproxima o filme de você. As notícias vistas na abertura são parecidas com notícias que você já viu no jornal sobre o virus Ebola ou a H1N1.

2. A noção de caos: cenas no meio da rua, no super mercado, nos prédios e conjuntos habitacionais, dão conta do que realmente aconteceria se uma realidade destas viesse à tona. Quando a câmera para de seguir os protagonistas e registra minucias do cotidiano caótico, isso também aproxima o filme de você. Você sabe que sua primeira reação seria correr ao supermercado e pegar mantimentos e logo o filme mostra isso acontecendo. Depois se imagina em casa absolutamente trancado com sua família e logo vê uma cena assim.

3. O conteúdo humano: Roland Emmerich (O Dia Depois de Amanhã, 2012) é o pai de todos os filmes-catástrofe. Porém, ele não resiste a mostrar os seres humanos do ponto de vista de heróis ativos do apocalipse. É sempre um vice-presidente que fica com seu povo, um cientista que cruza os EUA pra salvar o filho, etc. Foster é mais honesto quando mostra os seres humanos absolutamente assustados e impotentes diante da crise. Ele também não nos chateia com dramas humanos alheios ao problema-tema (como Emmerich adora fazer). O drama aqui é o que se esperava que houvesse: o da família tentando sobreviver desesperadamente à pandemia. É pelo componente humano que os primeiros atos do longa são cheios de tensão e carisma. O ritmo cai depois que o protagonista se separa de sua família, mas logo encontramos outro elemento de ligação humana: a soldado israelense que Gerry Lane salva da infecção.

4. Antecipação: Há uma máxima que diz que estar no caminho é muito mais importante do que chegar ao destino. Uma bobagem sem tamanho, obviamente. Mas funciona muito bem no cinema. Os momentos prévios são capazes de causar uma tensão que é justamente o prazer de assistir cenas de suspense. E Foster domina muito bem esta técnica em Guerra Mundial Z. É a sensação do perigo que ainda não eclodiu, mas está lá, cada vez mais próximo, seja na sequência da família de Gerry na rua, seja com eles dentro do edifício, seja dentro da cidade de Jerusalém ou mesmo dentro do laboratório da Organização Mundial de Saúde.

5. Um novo tratamento para os zumbis: eis o que os críticos mais odiaram. Os zumbis de Foster são rápidos, higiênicos e muito menos carniceiros do que os zumbis convencionais. "ele descaracterizou os personagens em prol de uma classificação etária mais baixa", protestaram. Quem se importa. Naturalmente apenas aqueles que assistem filmes para ver sangue e vísceras (os amantes da série Jogos mortais, por exemplo). Foster nem sequer filma direito os mortos-vivos. A câmera neles está sempre tremida e em ângulos mais abertos. Neste filme, isso funciona. Porque o que assusta aqui é a noção de terror que a quantidade proporciona. É horrível ver os zumbis amontoados feito formigas tentando subir as muralhas de Jerusalém e chegando ao topo. É angustiante vê-los virando um ônibus e chegando cada vez mais perto dos civis indefesos.

6. Brad Pitt: Ele é o herói do filme, mas é um herói mais perto do comum. Nada de chuck-norismo aqui. Pitt funciona no papel porque é competente nas cenas de ação tanto quanto nas em que sofre e perde as esperanças.

Bom. É isso. Guerra Mundial Zumbi é para aqueles momentos em que você precisa dar um descanso ao intelecto e se dedicar apenas à diversão. Vale uma tarde nas suas férias. O filme está fazendo sucesso nas bilheterias, o que deve render a ele duas continuações. Não é certeza. Ele teve vários problemas na produção: teve seu último ato completamente refilmado, extrapolou orçamento e atrasou-se no lançamento. Espero que os bons ventos de bilheteria façam o estúdio esquecer os imbróglios. Eu adoraria ver Foster dirigindo mais duas edições desta história.

Veja aqui um dos trailers de Guerra Mundial Z:


Amplexos mortos-vivos...

Ângelo Bernardes. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Detachment: ao mestre com carinho


Se eu pedir que você me indique um bom filme sobre professores, possivelmente você irá mencionar A Sociedade dos Poetas Mortos, O Clube do Imperador ou Escritores da Liberdade. É compreensível. Professores despertam mesmo esta imagem romantizada no imaginário popular. Estes longas mostram o professor como um super-herói, com poderes mágicos de transformação social e /ou pessoal.

É claro, esses casos acontecem, mas representam a exceção na profissão. O dia-a-dia de um professor de Ensino Médio no Brasil é estar às voltas com classes lotadas de alunos que em sua maioria desejariam estar em qualquer lugar menos ali, ocupado com burocracias que tomam o tempo da preparação das aulas, sem recursos para aplicar seus melhores projetos e  dividido entre dar qualidade ao ensino ou à vida pessoal.

É por isso que quando me perguntam qual é o melhor filme sobre professores eu respondo: Detachment (EUA, 2011). O filme acompanha o espaço de três semanas na vida do professor substituto Henry Bathes (Adrien Brody, o talentosíssimo ator de O Pianista) numa escola pública de um dos subúrbios americanos. A trama se centra nos dilemas pessoas e profissionais do protagonista, destacando um especificamente: como fazer a diferença na vida de alunos em um espaço tão curto de tempo? Este desafio é particularmente difícil porque a vida pessoal de Bathes está de cabeça para baixo. Sozinho e às voltas com um avô doente, ele estampa um vazio comovente, que não lhe impede, no entanto de ser sereno e seguro.

Uma vez um amigo professor, que se diz muito tímido, falou que se transforma quando entra em sala de aula, que encarna um personagem que é muito mais corajoso e que consegue resultados muito mais relevantes do que ele conseguiria fazer. É engraçado que Detachment mostra bem isso. A sala de aula é como se fosse um navio pirata para seu protagonista, cheia de aventuras e desafios. As cenas de Brody dando aula são belíssimas e empolgantes.

Porém, o maior inimigo do professor não é a falta de verba, a precariedade da estrutura ou os baixos salários. O professor de verdade tem o super poder (é um super poder sim) de suplantar estas obstáculos. Detachment é uma palavra inglesa que significa "indiferença". Esta sim, é a maior inimiga do docente. O filme mostra isso de maneira eloquente cheio de cenas em que Bathes lê livros e dá aulas para uma sala de aula vazia e depredada. A luta do professor é contra o status quo. É ele que o professor vive combatendo, perturbando, desafiando. Em geral, as pessoas (e principalmente, os alunos) estão tão apegadas a ele que fica difícil aceitar o desafio do “vem e segue-me” geralmente oferecido pelos mestres.

A explicação para este infortúnio é das mais incômodas: o mundo não precisa de mais salvadores. Precisa é de gente que queira ser salva. 

A escola tem bons professores, mas precisa de alunos que queiram estudar. Um professor terá em sua vida profissional completa até milhares de alunos, porém, aqueles que conseguirá tocar de maneira que provoque uma mudança de paradigma serão uma pequena parcela deste universo. Será que vale a pena o sacrifício? Meus colegas acham que sim. É por isso que não desistem de ser professores. É por isso que são tipos diferentes de heróis. São heróis da resistência. Gente que pega os cacos da própria vida, engole o choro, respira fundo e se expõem todos os dias na frente dos alunos tentando convencê-los a serem salvos...da ignorância, da falta de crítica, da escuridão que é não saber, da indiferença. E no meio daquele mar de rostos, sempre teremos quem levante as mãos querendo responder ao convite.

É aqui que eu me volto para um grande professor, que varreu esta Terra milênios atrás com seus ensinamentos incômodos. Ele encontrou pouca gente que queria ser salva, mas segundo Ele, os que encontrou estavam tão sedentos que valeram a pena cada gota de sangue derramado. É por isso que não me arrependo de ser professor. Sempre haverá gente, por poucos que sejam, querendo fazer a diferença. E é nesses que eu invisto cada minuto do meu tempo. Afinal, fazer o caminho da indiferença pra diferença é uma questão de duas letras ou dois alunos.

Abraços orgulhosos,

Ângelo Bernardes

Veja o trailer de Detachment:


domingo, 14 de outubro de 2012

50 tons de confusão.

Não li uma linha sequer da nova série campeã de vendas entre os livros. Não vim falar necessariamente sobre ela, mas sobre o que estão dizendo dela. Aparentemente a trilogia escrita pela britânica E. L. James está sendo recebida também como livro de auto ajuda, incentivando mulheres do mundo todo a se liberarem sexualmente e a serem mais felizes realizando suas fantasias. A revista Times, na sua habitual lista dos 100 mais influentes, acaba de mencionar E. L. James entre os nomes.

Pra mim, a trilogia 50 Tons... vai se somar ao calhamaço de publicações que profetizam trazer a resposta para a conturbada vida amorosa das mulheres. Essa semana li uma pitoresca entrevista na revista Época em que a sociopata socióloga Catherine Hankim explica que as pessoas deveriam ter casos extra-conjugais para melhorar o casamento. Dentre as pérolas disparadas pela pragmática estudiosa há conselhos para que os iniciantes na infidelidade aprendam com os franceses, a quem ela chama de "experts". Há uma definição de etiqueta que diz que as infiéis menos abastadas devem pedir presentes caros a seus amantes ricos. A socióloga arrebata explicando que infidelidade nada tem a ver com poligamia. "A dinâmica é outra porque você esconde o caso", esmiúça.

A mesma autora já havia causado polêmica com um livro em que ensinava mulheres a usar o corpo para ascender socialmente.

Já vi livros que treinam as mulheres para segurar seus homens agindo como prostitutas na cama, revistas que contam as maravilhas que o sexo casual pode fazer, um sem número de artigos com as mais variadas dicas: domine na cama, seja submissa na cama, os homens gostam das mulheres más, os homens gostam das ingênuas (porque eles se sentem mais seguros com elas). Enfim, quando leio certas declarações, imagino que tudo o que as mulheres precisam para ser felizes é um manual de usos e costumes do clítoris.

A julgar por esta diversidade de literatura, deveríamos ser uma sociedade de mulheres absurdamente satisfeitas no campo amoroso e sexual. Infelizmente não é o que tenho visto na realidade. Trabalhei como advogado na área de família alguns anos. Depois que deixei a profissão, passei a conviver com as mais variadas famílias por conta de meu novo trabalho. Em todo este período colecionei histórias de mulheres frustradas, numa eterna busca por algo que nem elas mesmas sabem o que é. Mulheres que humilharam e magoaram várias pessoas ao seu redor pra seguir algumas dessas posturas e terminaram tão infelizes quanto eram antes de mudarem de atitude.

É uma sina essa nossa. Somos seres espirituais. Não nos contentamos com a satisfação dos nossos instintos. Queremos dar um sentido pra tudo. Talvez esteja aí o problema de usar pornô leve como regra de conduta para uma vida plena: estamos usando coisas materiais para satisfazer desejos imateriais.

Sempre achei que o exterior (no sentido de matéria) deveria ser o transbordar de um interior (no sentido de espírito) incontido. Pra mim um casal pode estar tão sintonizado numa relação de comprometimento, amor, desejo e respeito que seria ótimo que um dia isso terminasse em sexo (embora se não terminar, não deixa de ser bom, só é menos completo).

Mas eu não entendo nada de sexo, não é?

Ei...espere um pouco...se eu não entendo nada de sexo, talvez pudesse ganhar dinheiro escrevendo um livro sobre o assunto.

Abraços irônicos,

Ângelo Bernardes.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Isso vai ser muito legal.

No final de Junho o diretor de relações públicas da Igreja Adventista do Sétimo dia anunciou que a denominação estava produzindo uma web-série. The Record Keeper (ainda sem nome em português) terá cerca de duas horas de duração divididas em capítulos curtos de menos de dez minutos, que serão disponibilizados gratuitamente na internet (a data de lançamento não foi anunciada). A história é baseada no livro O Grande Conflito, da escritora Ellen G. White. Vou esperar lançarem oficialmente para fazer uma crítica, mas o episódio piloto já foi disponibilizado e é surpreendente. Assista-o abaixo e me diga se você ficou tão tenso quanto eu.


Abraços ansiosos,


Ângelo Bernardes.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Crítica: Batman - The Dark Knight Rises

Rodrigo Salém foi criticado por dizer que Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge é a adaptação mais corajosa de um gibi para o cinema.. Bom, ele não está errado. O diretor inglês Chris Nolan tomou tantas decisões arriscadas que me é difícil imaginar os executivos da Warner aprovando o projeto se não estivessem embalados pelo absoluto sucesso dos dois filmes anteriores da trilogia.

Vou começar com as duas únicas coisas que não gostei. Nolan deixou tantas pontas para serem amarradas nos últimos atos que precisou lançar mão de aparições mal explicadas no melhor estilo "Tcharam! Não vou explicar como cheguei aqui!" (se você não entendeu, vai entender quando vir o filme). Nada que não seja comum em filmes de super-heróis, mas fugir do completo realismo (mesmo uma noção fictícia de realismo) não é comum a Nolan. O segundo problema é que eu ficaria satisfeito com um melhor tratamento para uma personagem tão importante como Miranda Tate (Marion Cotillard, que todo mundo acha que não é importante até certa altura). Ela protagoniza lá pras tantas do longa dois dispensáveis clichês cinematográficos (confesso que estou louco para explicar melhor, mas vou me conter. Vamos ver se vocês identificam).

Isso dito, vamos ao que realmente interessa. Nada que os críticos (os de araque, como eu aqui, e os de verdade) digam é capaz de diminuir a colossal construção artística que é este filme. Sua maior virtude? Casar a ação mais eletrizante e crescente com o mais profundo tratamento de dramas humanos e complexas questões éticas e morais.

Para fazer a primeira parte da fórmula, Nolan se utiliza de um expediente que já é sua marca registrada: nada de computação gráfica (vá lá, só um pouquinho). Tudo é simulado de maneira real, inclusive a mais espetacular das cenas, a primeira. Difícil imaginar que aquilo foi feito com dublês e aviões de verdade. Nolan também não poupa crueza na forma como filma (não raro, com película em tons saturados) explosões, lutas e perseguições.

A trilha sonora de Hans Zimmer é tremenda e indispensável ao resultado do filme. Ela impulsiona o filme pra frente. A impressão que dá é que a ação acompanha a trilha, não o contrário. A dosagem entre silêncio e orquestração completa também é magnificamente escolhida. Aliás, o silêncio engrandece cenas de luta e a simples voz de um garotinho cantando o hino nacional dos EUA a capella enquanto o vilão se prepara para golpear uma cidade inteira é de uma tensão indescritível.

Mas nem só de ação vive Batman e é o drama que o torna um filme sério. A começar dos atores que compõem o elenco-base. Anne Hathaway (Mulher-gato) está em seu melhor momento. Ela vai da fragilidade dissimulada à agilidade ameaçadora em menos de um segundo, literalmente e repetidamente. Michael Cane (Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox) excelentes como sempre. Gary Oldman (Jim Gordon) produz uma tristeza tão genuína que inspira compaixão e Joseph Gordon-Levitt (Blake) pende para o idealismo altruísta de maneira tão convincente quanto Tom Hardy (Bane) pende para o fanatismo destrutivo.

Este último Batman não deixa de ser uma análise da loucura em que imergiu o mundo desde os ataques de 11 de Setembro. É especialmente impactante a cena em que uma multidão de torcedores canta o hino dos EUA em um estádio com uma sincera e ingênua sensação de segurança enquanto flashes são mostrados de Bane e seus comparsas preparando aquele que poderia ser o maior ataque terrorista da história dos EUA.

O Cavaleiro das Trevas Ressurge consegue dar conta de maneira satisfatória de muitas questões sociais e psicológicas: a legitimidade dos levantes sociais, a difícil relação entre vingança e justiça, o papel dos ricos frente à pobreza, a melhor forma de superação das tragédias pessoais. Mas este filme é realmente grande na forma como trata uma questão que parece não ter resposta: quando todas as instituições democráticas falham, quando aqueles que deveriam nos proteger estão tão impotentes quanto nós, quando o caos toma conta da nossa sociedade, o que ou quem poderá nos livrar da completa falência?

Nolan parece responder, numa análise longe de romântica, que a resposta para esta pergunta é que precisamos de heróis. Não porque eles possam nos salvar, mas principalmente porque eles podem nos inspirar. E quando faz alusão a heróis, Nolan não está se referindo ao Batman. Eis o elemento mais corajoso, mais denso e mais inspirador desta conclusão épica: Nolan fez um filme sobre o Batman em que o Batman é um mero coadjunvante.

E eis a chave para entender e gostar do longa: seja lá o que você espera que os outros façam por você, comece a fazer por si mesmo.

Assista a um dos trailers de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge:


Abraços altruístas.

Ângelo Bernardes 


sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Ganso comenta: TV Globinho, Encontro e Na Moral

Era uma vez um diálogo numa palestra sobre a imagem do Brasil no exterior, ministrada nas Faculdades Integradas Barros Melo, em Recife. O colóquio se processou mais ou menos assim:

ALUNA BOCÓ: Tem havido um descontentamento dos estrangeiros ao visitarem o Recife. O que vocês estão fazendo para mudar isso?
PALESTRANTE: Ér....de onde você tirou essa informação?
ALUNA BOCÓ: Tem um amigo meu francês que não gostou daqui e tem um casal de italianos amigo de uma amiga minha que também reclamou.
PALESTRANTE: Bom, as estatísticas mostram que o índice de satisfação dos estrangeiros com Pernambuco ultrapassa 80%.
ALUNA BOCÓ: ?!

É normal. Se temos uma opinião formada e nossos círculos mais próximos compartilham dela, tendemos a acreditar que este é o posicionamento do consciente coletivo. Foi por isso que olhei com certo divertimento várias ações empreendidas no Facebook onde crianças e adolescentes pleiteavam o retorno da extinta TV Globinho.

Sustentar a TV Globinho era um mal negócio para a Globo em vários aspectos: (1) O pacote com os desenhos preferidos da criançada estão no SBT, não na Globo. Há décadas a emissora de Sílvio Santos detém os direitos de transmissão da maior parte das animações da Warner e de muitos desenhos japoneses. (2) A TV Globinho foi um dos programas infantis mais mal-sucedidos da Globo. Amargava uma média de de 6,0 pontos no IBOPE e vivia computando derrotas para as principais emissoras concorrentes. (3) A programação infantil representa apenas 5% dos investimentos da TV aberta, contra 80% nas TV's por assinatura. Os anunciantes também migraram para lá. Enquanto Fátima Bernardes possui um acervo de 26 anunciantes, a TV Globinho contava apenas com 16. (4) Como se não bastasse, na última década a criançada tem trocado a Globo pelos canais pagos e pela Internet sem maiores cerimônias. (5) Por fim, parecia mesmo curioso sustentar uma programação para um público-alvo que, em sua maioria, está estudando no momento em que ela é transmitida.

Estas são as razões pelas quais a TV Globinho está morta e enterrada não importa quantos esperneios as redes sociais revelem. Em geral é pura malcriação, bem própria da idade.

Apesar disso, nem tudo são flores para a nova apresentadora das manhãs. Assistir Encontros é um tanto constrangedor. O programa é confuso. Circula sem maiores cuidados entre debates, notícias, quadros de entretenimento, etc. Parece, inclusive, que aqueles que estão envolvidos na apresentação também estão tentando se localizar dentro dela. Fátima vai levar algum tempo para se acostumar à informalidade de um programa de auditório. O companheiro que a jornalista arranjou para interagir ao computador também não parece seguro no desempenho de suas funções. É aborrecido assisti-lo tentando se acertar com os e-mails que lê. No programa que assisti para fazer esta crítica, quem deu dinamismo à discussão foi o apresentador Luciano Huck, este sim, completamente à vontade com o formato. Além disso, o programa parece sério demais para o horário a que se destina, período em que, em geral, o público é composto de mulheres de baixa renda.

Do outro lado do horário, quase na madrugada da quinta para a sexta, uma outra estréia desafia os telespectadores. É o Na Moral do também jornalista Pedro Bial. Trata-se de outra atração que envolve debates. Mas aqui temos uma coleção de virtudes (do ponto de vista do entretenimento, lógico). Bial está completamente seguro no comando da conversa. A troca de câmeras, o sentar-e-levantar do banquinho, as intervenções feitas pelo apresentador, tudo está orquestrado. Ao contrário do Encontro, Na Moral concentra-se num único tema e, ao debatê-lo, mescla opiniões de artistas e especialistas com histórias reais encenadas na tela, humor e provocações. Tudo isso com a ótima escolha de NÃO DEIXAR A PLATEIA OPINAR (vai que alguém esboça uma opinião como a do início deste post e estraga tudo).

O apresentador usa um modelo já conhecido no meio pedagógico: mostra parte de uma história no vídeo, o que leva os debatedores a uma determinada opinião. Depois mostra o restante da história, que contraria as opiniões dadas e provoca um efeito surpresa.

Talvez o único problema de Na Moral (e vá lá, do ponto de vista do entretenimento pode ser até uma virtude) é que o ritmo dele é rápido demais. As respostas são cortadas no meio sem cerimônia pelo Bial e nada fica muito bem debatido. Como disse um amigo meu no Facebook: "Na Moral não responde nada, instiga discussões, causa intrigas e aumenta dúvidas. Mas é divertido".

Sou fã da Fátima Bernardes e ando meio aborrecido com o Pedro Bial desde que comecei a me aborrecer com o Big Brother, mas aqui preciso admitir que temos um expert ensinando a uma principiante como se faz TV para o povão, esta entidade.

Boa sorte, Fátima.

Abraços provocadores,

Ângelo Bernardes

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Forever Jones: Musical Revival

O grupo familiar Forever Jones une os dois estilos que os cristãos americanos mais gostam: o gospel (que não tem nada a ver com o sentido que os brasileiros dão à palavra) e o worship. Como eu ando meio aborrecido com ambos os estilos, você pode imaginar que não fui escutar ao mais recente trabalho da banda com muita empolgação. Do primeiro CD deles somente fiquei com duas músicas. Porém, como eles são a mais nova sensação do meio evangélico nos Estados Unidos, tive que dar-lhes o benefício da dúvida em nome dos leitores do Ganso.

Bom, foi a melhor coisa que fiz. O disco é maravilhoso. Entenda: não há nada de muito rebuscado ou inovador aqui. É um trabalho muito simples, mas há beleza e deleite também na simplicidade. É este o caso.

Antes de adentrar na breve análise do CD é preciso explicar uma coisa. Grande parte do encanto do Forever Jones vem do fato de haver uma família inteira envolvida. O grupo é formado pelo casal DeWitt e Kim Jones e seus cinco filhos (temo estar apaixonado por uma das garotas - no vídeo, ao violão). Sendo a família a principal instituição americana, não é de se surpreender que os estadunidenses gostem tanto de ver sete parentes unidos louvando no palco.

No entanto, há outro ponto positivo a favor de Musical Revival. Neste último álbum eles lapidaram os dois estilos que formam a identidade do grupo, o que lhes permitiu alcançar uma audiência maior ainda. Por "lapidar", entenda-se retirar as intermináveis repetições do worship e diminuir os incontáveis gritos do gospel. Isso, obviamente, tem um efeito colateral: fez com que as músicas ficassem bastante curtas. Dificilmente elas chegam à casa do quatro minutos. Fosse uma união tradicional dos dois gêneros mencionados, elas continuariam sendo curtas, mas se extenderíam pelo dobro de tempo com melismas e repetições (e aqui no Brasil, gemidos).

Minha faixa preferida é Rescue, uma canção no estilo "old school" cantada com a voz um tanto cavernosa do papai Jones e modernizada pela guitarra de um dos filhos. Soma-se isso a um baixo marcante e pronto. Eis uma bela canção.

Para os momentos de tranquilidade, as vozes femininas delicadas de Hold Me Still e You Are Welcome. Para os momentos de ritmo, o ritmo empolgante de I Know Who I'm Living For.

Não espere muito das letras. Não são ruins, obviamente, mas não vão te acrescentar nada de novo. Em geral, falam de recepcionar bem os visitantes na igreja, confiar em Deus e viver por Ele.

Musical Revival talvez não sirva para seus momentos de reflexão mais introspectiva, mas certamente é uma boa companhia para um passeio de carro ou para andar no parque ao som de um player de música. Sem falar que, pelo preço de um único CD, você leva uma família inteira.

Veja uma recente apresentação ao vivo dos Jones:


Abraços audiofônicos,

Ângelo Bernardes